O especialista Vinícius Matos ensina truques preciosos e fundamentais para dirigir quem não é modelo profissional
Por Livia Capeli (texto) e Vinícius Matos (consultoria e fotos)
P
osar não é tarefa para qualquer um…Caras e bocas, virar para lá, para
cá e ainda fazer um olhar da maneira mais natural possível é coisa para
profissional. E felizes são os fotógrafos de moda que, na hora da
direção, contam com modelos acostumados a fazer o que se pede. Bem
diferente do trabalho de um fotógrafo de casamento, que enfrenta
diariamente o desafio de dirigir noivas e noivos desacostumados com os
flashes da fama, caras e bocas.Uma boa parte dos profissionais que lidam com fotos de pessoas (sejam elas comuns ou não) convive com inseguranças do tipo: “será que medi a luz corretamente?” ou “será que estou usando o equipamento suficiente? “E se ele não funcionar?”. Mal se lembram de que os verdadeiros inseguros ali não são eles, e sim os retratados, que se expõem diante de uma câmera.
Constrangimento, timidez e expressões não genuínas são muito comuns de se receber quando se dirige modelos não profissionais. Não espere do cliente uma atuação de modelo ou ator. Na maioria das vezes, o resultado insatisfatório não é culpa do retratado e sim do fotógrafo, que não conseguiu deixar a pessoa confortável.
Conhecido pelos ensaios em que os casais aparecem muitas vezes em poses e gestos espontâneos, o especialista Vinícius Matos – nesta oitava e última aula – ensina algumas dicas fundamentais para deixar os noivos mais confiantes na hora da direção de cena de um ensaio. Acompanhe aqui alguns segredos que são compartilhados por ele no curso de direção de noivos, ministrado pelo fotógrafo na Escola de Imagem, em Belo Horizonte (MG).
Gente sem pose
Saiba provocar a expressão no casal usando
comandos bem articulados: aqui a ordem era para o noivo cochichar
palavras românticas no ouvido da noiva
Seja franco e admita: a maioria dos noivos quer que você registre aquele momento singular na vida deles e não uma expressão copiada de uma revista de noivas. Saber como provocar os momentos genuínos do casal é o que faz o sucesso de direção de uma foto.
Não que poses sejam proibidas: ao contrário, elas são muito bem-vindas como ponto de partida para serem desconstruídas aos poucos. Elas podem funcionar muito bem para provocar um movimento, que irá gerar um repertório inteiro de fotos mais espontâneas.
Para começar a dirigir um ensaio, lembre-se de averiguar sempre com os noivos como eles estão se sentindo. Posições desconfortáveis geram expressões indesejadas, segundo Vinícius. Dor, frio, fome só atrapalham. Preocupe-se com o seu cliente, pois o que ele sente reflete no estado físico de conforto ou desconforto.
Ser um bom anfitrião é outro ponto essencial para a direção de modelos. Nada de começar um ensaio com o “dedo no gatilho” da câmera. Saiba pedir permissão, que é diferente de dizer: “posso tirar uma foto sua?” Existem diversas maneiras de se fazer isso, seja com um bom bate-papo preliminar, um olhar ou um gesto que faça o modelo se sentir seguro, à vontade e pronto para ser revelado por uma lente. Cada um tem uma maneira de fazer melhor essa abordagem. Descubra a sua.
“Faça muitas perguntas, mostre interesse pela vida do casal. Seja carismático, isso ajuda o fotógrafo a assumir o controle durante o ensaio”, ensina o especialista.
Sem vergonha
Outra dica de Vinícius para obter sucesso em direção de cena é a questão do “bem estar consigo mesmo”. Ele comenta que você só vai conseguir alegria do fotografado quando você mesmo transmitir tal sentimento.O retratado age como um espelho do fotógrafo. Se o profissional esbanja bom humor, boa parte do caminho já foi traçado e é isso que ele vai receber em troca: um casal pronto para colaborar. Se for preciso pule, gargalhe e grite junto com o modelo, não o deixe “pagar o mico” sozinho. Incentive brincadeiras para resgatar o espontâneo.
Você pode pedir uma pose aos noivos como ponto de partida e, em seguida, ir desconstr uindo a cena e criando um repertório de
imagens espontâneas
imagens espontâneas
O estímulo sensorial é outro artifício que ajuda. A música povoa a mente das pessoas, ela envolve e gera um clima. Se não tem música onde você está, carregue um rádio portátil (iPhones e iPods estão cada vez mais acessíveis nos dias de hoje, assim como caixas de som portáteis).
A sua fala também é uma outra ferramenta importante. Saiba modular o tom de voz. Vinícius Matos afirma que é possível prender a atenção dos noivos e imprimir o que se deseja deles por meio do tom: se você quer uma atmosfera romântica, não adianta falar alto, tem de ser suave. Já uma expressão mais energética requer um tom de voz mais forte. Ação gera reação.
Comunique-se
Ser um bom comunicador faz parte da profissão de fotógrafo de pessoas. Para Vinícius, uma boa comunicação permite que se mostre aos noivos com clareza o que se deseja. Um curso de oratória e de teatro é uma boa pedida para quem é tímido ou tem dificuldade de se expressar.
Assim como usar uma música durante o ensaio
ajuda a descontrair, a modulação da sua voz também é importante para
criar um clima na cena: aqui, o fotógrafo usou um tom de voz bem suave
para orientar o casal
Lembre-se que pausas também são importantes. Vinícius diz que quando o fotógrafo consegue do fotografado o que deseja, deve fazer uma pausa nas coordenadas, pois excessos podem confundir a cabeça do cliente. Ser um bom comunicador também não significa que apenas você fala e dá as ordens, é preciso ainda ser um bom ouvinte. “Em uma sessão fotográfica, se o fotografado se sente valorizado, ele dá créditos e aumenta a confiança no fotógrafo, que comanda a sessão com todo o aval do cliente. Por isso, pergunte e escute muito antes de começar a fotografar”, indica o especialista.
É muito importante também que você dê um feedback positivo ao seu cliente durante o ensaio. Ele precisa saber se está fazendo tudo certo e isso se dá por meio de palavras de incentivo. Massageie o ego do outro. “O ser humano tende a dar o melhor de si quando recebe elogios. Se você fizer assim, vai colher resultados surpreendentes”, afirma o fotógrafo. O feedback corretivo também é importante. Quando as coisas não acontecem como gostaria, Vinícius diz que procura demonstrar ao casal o que deseja por meio de gestos, usando a linguagem corporal. Ele também costuma mostrar a foto que acbou de fazer no monitor da câmera. “Esse tipo de feedback é ótimo, pois o fotografado consegue se ver e então pode colaborar ainda mais”, afirma. O especialista alerta que se deve evitar dizer que algo não deu certo ou não ficou bom. Essa atitude pode gerar insegurança e colocar toda a sessão em risco. Bronca, jamais.
Explore a técnica do espelhamento: você pode demostrar com o seu próprio corpo a pose que deseja que o modelo faça
Eduque-se
“Por favor”, “obrigado” e “com licença” são palavrinhas mágicas que lubrificam o processo de comunicação em um ensaio (aliás em qualquer lugar), segundo Vinícius. Grosseria deixa o retratado na defensiva (e quem não fica?). Lembre-se de usar o “olhos nos olhos”, pois o fotógrafo acaba se escondendo por trás da câmera e acaba perdendo o contato visual – muito importante para criar credibilidade e confiança. A dica de Vinícius é procurar sempre alternar o seu olhar entre o visor da câmera e os olhos do cliente.O especialista afirma que a linguagem corporal é outro ponto importante durante a direção de cena – muitas vezes, até mais que a comunicação por palavras. Por meio do corpo, gestos e técnica do espelhamento (mostrar ao modelo o que se deseja fazendo poses e gestos com o próprio corpo) você pode dar uma “mãozinha” àqueles que não são modelos profissionais. Em outras palavras: não tenha medo de parecer ridículo e exemplifique o que deseja.
Para finalizar, o especialista aconselha: “Pratique sempre. São raros, infelizmente, os bons diretores de fotografia no mercado atual. E a culpa é nossa, pois nós fotógrafos praticamos muito pouco. Procure praticar mesmo não sendo remunerado para isso. Direção de cena é uma questão de experiência”, diz Vinícius Matos
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